domingo, 30 de novembro de 2008

Leio sua mente na noite abafada
Sinto a cadeira macia balançar
Por suas pernas insistentemente nervosas
Olhos que me olham no escuro
Mãos que torcem dentro dos bolsos
Faço o quê?
Não penso.
Um grito seco e ácido
Corrói a garganta
Não passo o tempo, penso o passo
Do próximo segundo
Delírio cortante de menino romântico
Sem prévias, sem mágoas
Que possam lhe dizer
O quanto eu posso te fazer sofrer;
O rio que corre para o centro do corpo
Pulsa a dor e a incerteza dos atos mil vezes pensados
Um impulso de agir que não vinga nunca,
Porque sabe, no fundo,
Que a gente não combina.
Desço os degraus e pulo no cinza
Os muros pichados de vermelho-sangue
Uma águia de metal no céu borgonha
Crianças soltas à uma da manhã
Domingo, e ainda perambulo pela cidade
Chego à minha rua, amarro o cadarço solto
Sem olhar para trás;
Passo ao lado do trio que fala da "mina"
Moleques do gueto,
Gato gordo branco e doirado,
Assustado na calçada
Lembro que isso é cousa de Pessoa
Tranco a porta atrás de mim,
Sirvo um pouco de ração no pote
E elas arregaçam os dentes, gritam,
Se espanam e espirram de felicidade
É sempre assim, quando abro
A lata de panetone que contém um saco com os dizeres:
"Ração para filhotes".
Mas elas tem onze e doze anos!
E eternas crianças que são...
Os fogos pipocam n'algum bairro vizinho
E Bel apoia as patas trêmulas em minhas coxas
Com as orelhas enormes em alerta,
Só adormece sossegada quando no colo
Focinho enfiado entre minhas mãos.

domingo, 23 de novembro de 2008

Tudo tão abandonado à penumbra
Tudo tão entregue à madrugada...
As pernas lânguidas envoltas num lençol branco
A chama do isqueiro, a brasa do cigarro
Iluminam seu rosto
Silêncio
Sim
Esse é o nosso caminho
De estranhos conhecidos
De amantes forjados no azul escuro do céu
Todas as estrelas que vimos
Com o pescoço esticado para cima
Com o frio cortando a pele do rosto
Todas elas viram
E calaram.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Estava andando na orla da praça
Vi felicidade em conserva
Um pote colorido de vidro sufocante
"Leva dois, paga um"
E pensei em você
Quando a gente andava de mãos dadas
Ou corria na chuva
Pulando as poças
Quando saía com os cachorros
E passava junto, amando,
Mais de vinte e quatro horas
Dos pecados aflorados no macio travesseiro
De um banho frio naquele dia de verão
Lembra da noite em que dormimos na sala?
Dos abraços no elevador,
De uns medos daquele imenso jardim,
Da árvore que fazia chover?
São muitos dias sem você
Pra gastar meu dinheiro
Naquele pote colorido
Se ainda preciso de um especialista
Pra descobrir
Se o que vaza
É sangue ou mercúrio chromo.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Para Fernando Lupado

Meio lírico, meio agônico.
Meio perdido
Como flor que nasce no asfalto
Sobe por uma fenda
A procurar o sol
E se depara com a ranhura negra
No pixe.
Transeunte da chuva
Hóspede do inferno
Da insône boemia.
Dama pérfida, lasciva.

[para Fernando Araújo]

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Tinta de caneta
Mancha no papel
Sangue latejando
No cilindro acrílico
Raiva, asco, pena
Ela quer é cena
Eu me calo
- Ponto final -
Não haverá grito
Nem choro
Só um adeus silencioso
Com lamento de esguelha.
Branca espádua
Tez fina
Carne macia
Ornada por um ditame
Uma orla
Sem rótulo
De tamanha expressão.

sábado, 15 de novembro de 2008

Uns sorrisos na bolsa
Umas máscaras apertadas
Nas quais já não caibo mais
Talvez uma música
No meio da madrugada
Tenha penetrado meu corpo
Por osmose
Por muito menos
Seus olhos me olharam
Não disse,
Não disse nada
Não era preciso
Foi apenas um desatino
Frio abraço do destino
Uma onda terna, quente
Como hálito de virgem
Tuas mãos nos nós dos meus cabelos
Tua boca no meu ouvido
Minha liberdade alugada
Num cabaré com poltronas e almofadas
Escarlate
Seu corpo me censurando
Contra a parede nua
Minha sede,
Meu sonho latente
Você na mira da minha lente.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Décadence Avec Élégance

Eu minha
Tua dele
Minha Persona
Tua máscara
Luxúria, volúpia
Eu sem mim
Sombra
Eu por mim
Pelo que emergi
Meu minha
Solitude
Indefinível, indecifrável
Vaga no mar
Aquário de sal
Bocas de peixes
Que se entrechocam
Nas lâminas de luzes
Brilhantes e azuis
E negras pérolas
Em lugar de olhos
Lodo e algas presas nos dentes
Seda preta, soturna
Ossos noturnos
Pele lua
Carne crua
Saliva cicuta
Boca de lagarta
Chapada
Pernas arroios
Lambidos pelos olhos dele
Por uma tez lúcida e louca
Por uma vida em troca da morte
Uma voz que vem em ondas
Meu corpo à tua sorte
Bálsamo lírico
Teus olhos caleidoscópicos
A me namorar
Eu boneca de cera
Fina renda
Insône
A te desejar.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

O quadril da moça balança
Olha do pé da escada
Para o topo
E vê andróides caminhando
A roupa engomada
O hálito de hortelã;
Musica lenta, a boca amarga
Do tédio diário entubado no metrô
Atravessa a rua
Em meio à bagunça,
Passa pelo carrinho fumarento de churrasco
E toda sorte de barracas
Espalhadas entre as filas
De ônibus
Ai, que dia chato!
Pensa ela em ir pra casa
Mas o dia mal começara...