sábado, 30 de agosto de 2008

Meu comportamento te distrai
Enquanto a chuva desaba
Do outro lado da janela
Meu medo se contrai
Quando você vem
Ele sabe,
Ele sente.
Que ser medo não dá mérito a ninguém
Nem ao medo, por não temer
Ai de mim! Que não tenho medo
Porque até ele projeta fuga
Quando sente o teu cheiro.
Sai de mim, que eu não sou de você!
Você me pega, me embala, me embrulha
E eu viro um pequeno pacote de presente
Atirado nas mãos do namorado.
Não vou contemplar sua coleção na estante;
Eu sou seu instante
Contente-se,
Ou diga a verdade, agora,
Antes que seja tarde,
Dessa vez.
E ouvi o que ela disse:
It's too late, baby,
Ao piano;
Eu sei.
Sempre soube que é tarde
Pra você
Que é demais para mim
Todo esse peso no peito
Todas essas brigas
E difamações;

Eu não posso mais gritar
Porque minha voz é falha
Eu não posso mais ir até aí
Porque você não olha nos meus olhos
E eu não suporto essa covardia;

Eu não penso em você, droga!
Eu não penso.
Meu corpo fica assim, inerte
Aí você aparece e ele se debate
Porque não pode ser diferente
E só.
Simplesmente, porque sempre foi assim
Pra você
E pra mim.

Não adianta falar.
Eu não quero mais.
Você não entende
Que o mundo não precisa de você
Nem eu.
Mas eu quero,
O mundo não.
Tão cético, imbecilmente
Cético.
Nem se eu estendesse a mão
Você viria.

E é assim...
Pela metade, por um momento
De felicidade,
Por uma culpa
Ou por vaidade;
Por uma única verdade.

Orgulho.

Do fundo do copo
Ao filtro do cigarro.
Pelas tampas com você!
O mundo não é o seu palco,
Portanto, desça daí e vem me encontrar,
Que eu no camarim, te esperando.

domingo, 24 de agosto de 2008

Impressoras, telefones
E outros aparelhos eletrônicos
Em colapso
Gritando sons ininteligíveis
Neste cubículo enfadonho -
Prisão deste frigorífico humano;
minha boca abre qual a boca d'um peixe
A palavra muda se debate
Em convulsão, a pobre.
Enrolada na língua,
Presa entre os dentes...
Estrambólico ser
Desesperado e latente
Ansiando por um roto pedaço de papel
Fugindo de ouvidos entupidos pela cera dos mass media.
É sempre assim
Você pensa ser fácil,
Tipo café expresso,
Mas o copo vira na mesa
E começa a briga.
Primeiro round: Ele me odeia;
Segundo round: Eu odeio ele;
Intermináveis questionamentos
Desejo turvo, porém certeiro
Entre uma e outra que salta
Do palavrório
Me vejo com papel e caneta
E um poema capenga entre os dedos.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

A poesia é aquele ensimesmar-se
Que nos escancara para o mundo
Brisa leve, fresca,
Com aroma de dama-da-noite;
Introdução ao viver
Com o toque das cordas
De uma arpa
Assobio no escuro
Maçã suculenta e doce
O fio da foice
A derradeira hora
A poesia não é glória;
É o minúsculo
A cor defectível
Sob o olhar humano
São meus trapos,
Meus panos.

sábado, 16 de agosto de 2008

Sou verme pleno
Quando a carne vadia
Nua ao sereno.
Hoje a Lua está linda:
Cara pálida, cheia,
Cheia de más intenções
E numa vala negra
Sugo teu veneno lento,
Peregrino
Derramado em meu desejo
Fogoso menino
Ávido por seus dedos
Sedento pela fruta
Macia, suculenta,
A mais fresca
Dicotomia
Um instante supremo
Descolado de tu'alma
Vazia
Tão breve alegria
Saudosa sintonia.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Ai que saudade
Da minha avozinha!
Aquela fadinha nervosa,
Tããão buliçosa
E de um só tempo
Ensimesmada
Que cosia num quarto
Abafado
Com dedinhos ossudos
E olhos arregalados.
Ai, minha avozinha,
Minha mãezinha,
Saudades de um camarão com xuxu,
Banana frita com farinha
E a barra da saia
Balançando na praça
Da Rua do Mar...
Ai, que saudade da minha avozinha!
Quando o tempo se demora
Em dois minutos -
Todo o ar do pulmão,
Quando o tempo não passa
Da vidraça
Quando disperso meu tempo
Falando do tempo de cada dia
Que não ultrapassa
O vão do meio-dia para desembocar
Na noite.
Quando o tempo sobe a Lua -
Quando a Lua pede um alento
Ao tempo,
Pois não mais suporta
A frieza das intrépidas Estrelas;
Prostitutas disfarçadas
De moças singelas,
Aquelas feras...
Vai meu olhar, aí, num breve momento.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

São Paulo, não abandone a vida...

Por que eu miro
A linha do horizonte
E quando meus olhos
Enxergam a faixa cinzenta
O pulmão parece estancar
Todo trabalho de respirar;
A caixa registradora,
Localizada no cume do corpo,
Passa um filme
Daqueles dias em que
Chovia na minha vida;
Náusea.
Amar estas avenidas,
Como ele ama as pernas
Da moça,
Já não basta
Para este músculo mole
Pulsante
E o cinza me entristece
Me faz concreto
Como o que compõe os edifícios.