sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Braços abertos
Na guia da calçada
Um pé a frente do outro
Como na corda bamba
Soltei os laços,
Deixei a vida correr
Sob a abóbada negra
Deixei que saltasse as poças
E chutasse as pedrinhas
No meio do caminho
Parei no cruzamento
E fiquei estática
Vendo-a correr
No embalo do amarelo piscante
Sob a garoa rala.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Mais de um dedo discando
O número do suposto doutor
Num desespero supremo e inaudito
Com os olhos saltados de pavor;
Os pulmões mal aprisionavam o ar
E este já escapulia.

A mente insône não parava
Incessante, tamborilava no teclado
Apressada, desconexa,
Quase decrépita idéia
Que boiava na superfície
Da água junto à gordura
Na pia.

Os pensamentos se contorciam
Tentavam a evasão inexorável
Por vias alternativas do meu corpo
Brotavam assim, sem o menor pudor
Em público a me vexar.

domingo, 19 de outubro de 2008

Se espantam quando,
Por nada,
Apareço com os olhos enevoados
E a palidez do rosto
Revela morbidez;
Ao que tento explicar
Que sou assim triste
E a felicidade
É somente um estado efêmero
Que se instala na forma
De sorriso caduco...
O sol nasce, sim, para todos
Mas a alguns açoita a carne,
Rasga-lhes a retina.

Minha moléstia se molda
Conforme o tempo
Num dia segue o lume
Noutro prefere pisar em brasas.

sábado, 18 de outubro de 2008

Me apaixonei!
E passei horas
Admirando sua imagem...
E agora José?
Que belo infortúnio
O destino me enviou
Mais uma vez...
Já não era sem tempo
A libertação de minh'alma
E novamente meu coração é esmagado
Pela doce voz de um passarinho.

Os nervos conflitantes
Enviam mensagens de retrocesso
E é como se a comporta se abrisse
E o ontem estivesse do outro lado;
Ainda hei de descobrir o antídoto
Contra essas febres soturnas.

sábado, 11 de outubro de 2008

Vivo pensando em você
Ai como choro à noite!
Quando vem aquela saudade
E contemplo teu rosto numa foto;
É amor, eu sei,
Do mais puro, destilado,
O mais sofrido...
Logo vem uma letra sua
E sossega a alma
Faz dormir em paz
Ai, que falta você me faz!

[Para Mario Quintana]
Sou o momento
O gosto da mordida na maçã
Nostalgia,
Música,
Alegoria
Sou veneno antimonotonia
O balanço da palmeira
Na viração
Sou mais que intenção
Tatuagem da memória
Ressaca noturna
Estendida na areia
Sou sereia,
Beijo fugaz
Moça plácida, sem máscaras...

Abraço a saudade
- Pedras da tua rua -,
Minh'alma é nua
Nesses dias de rotina dormida
Quando perco o pálido desejo
De esquecer que te esqueci.
Me vesti de palhaço
Acendi um cigarro
Nos degraus da igreja
D'algum lugar, lugar qualquer
Pedi pra adormecer lentamente
E sonhar com um campo verde
Ensolarado
Pra não perceber
Minh'alma indo...
Quando esses dias opacos chegam
As palavras perdem o sabor
E a melodia;
Me visto de você pra reviver
A estação mais linda
Em que te conheci
Eu floresci
E minhas folhas eram brilhantes,
Mal me lembrava da lama
Aquela negra dama.
Já fez um ano, amor
E a frase é sempre:
Toca a vida, toca.
E eu toco, vou levando
Com meus olhos assassinos
Que aniquilam as lágrimas
Antes mesmo que nasçam
Vou tocando com um bolero e a voz dela
Até os ouvidos inchar
Vou buscando um banco,
Aquele banco de bar.