sábado, 29 de março de 2008

Olhei para ele
Evitei ao máximo
Encarar seus olhos negros
Mas com o coração flamejante
- Quase num rompante -
Tomei velocidade
E me joguei em sua direção
Seu nome era Medo,
O meu Coragem
E cá estou eu,
A única sobrevivente do combate.
Não há mais tempo
Para chorar
Não há mais hora para
Voltar
Não há mais tempo...
Os dedos correm as páginas,
Espancam as teclas
Erguem-se para as dúvidas
Apertam os olhos embaçados
Os murmúrios são vagos,
Pois não há mais tempo,
Entende?
Sinto-me o próprio coelho branco
Corro, corro contra o que não há
Chego a perder o fôlego
E no fim da noite
Quando choro baixinho
Faço o tempo voltar
O dia recomeçar
E é tudo assim,
Um ciclo sem fim.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Não sou mais minha
Sou segredo
Segmento
Um desejo extorquido
Não vivo meios
Ah, como amo!
Aos soluços
Ao pulso vibrante
Vindo do maquinário
Da perdição
Não piso em falso
Atiro corpo, alma
E tudo mais que
Viaja no sangue
É sagrado
É sentido
É respirado
Todo romantismo
Gritante
Que é expelido
Pelo suor
Toda voz que cala
Pra deixar dizer
O olhar
Pra arrepiar a pele
E um amigo diz:
"Menos romantismo,
Mais chute na canela!"
É o susto,
O engasgar
Ao acordar de um sonho
Que não se quer deixar.

terça-feira, 18 de março de 2008

Para Mario Liz

Se joga Poeta
Se atira na vida
Derrama tua febre
Em mim
Desagua teu homem
Na flor de jasmim
Me olha por dentro
Me embala assim
Só não me oculte
A pele insana
Poupe o latim;
Só quero pensar
No que seria se fosse
O que quereria por fim
E chego a tentar emendar
A estrada
Que me leva a ti.
Lua alta lançada
Como pedra no breu
Hoje a noite foi safada
Ontem atirei os eus
Despojei-me da rotatividade
Dos pensamentos senis
Lamentei o último trago
E vomitei meus males em ti
Descolei do mármore da face
No canto
Sorrisos gentis
Quando o moço olhou de lado
Lembrei-me das palavras sutis
Quais andei desenhando
Com os dedos febris...
Que gargalhada gostosa
Escapou-me faceira
Tu não tens o tato
Que o rapaz deve ter
Tu és tão medíocre
E pequeno
Que numa rima não cabe
Sequer faz ruido
Tens um lado caído
De quem nada mais quer
Pois do carmim que pinto
Os lábios em flor
Nem mereces o beijo
Embebido em cicuta
Estalado com efeito
E a cada verso oferecido aqui
Imprimo meu desprezo
Com perfume nº5
Pra lembrares de mim.

domingo, 16 de março de 2008

Sai a boca escarlate da cena
Desses sítios decadentes
Para outras frutas morder
Em outros copos beber...
Sai a tirana loucura
- Os dias e noites serão excitantes,
Amanhã olharei de esguelha
As ruas de pedra, os rios e fontes
A gente toda
E o cheiro que exalam
As meninas de antes

Meu perfume é mais marcante.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Sonhos estranhos
Povoam as noites
Aquela velha carícia
Mansa
Retorna para atormentar
Os olhos não conseguem
Secar
O que lhes aflora
Entre a loucura
E a sanidade
Queima um resto
De desejo e esperança
Na vela acesa
Queima o corpo
D'alma presa
Gestos falhos
Sentimentos jogados
Na mesa...
O ponto obscuro
Que não posso enxergar
A resposta clara e rasa
Que mandei soterrar
Meu eu me diz
Tonterias
E não paro de chorar
E ao despertar
Percebo o coração
Na mão
Tão crispado e sujo
Por andar nas lamas

O que me cura
É muito caro;
Deixo meu corpo
Cair em pedaços
E abafo a convulsão
Diária.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Que as escovas-de-dente
Não se misturam
Já sabia eu
Pior saber foi
Que palavras
Verdadeiras eram
Mas não sensações
Ou talvez um lapso
Coqueluche da vez;
Arrancar um naco
De carne
Com as unhas
Como se normal
Fosse
Sem derramar
Gota de sangue
Sequer
Limpar das botas
A terra
Mas a marca imprimir
No músculo mole
Que soca a caixa
Das engrenagens.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Sons ininteligíveis
Gritos inaudíveis
Quando a cabeça vagueia
Por outros sítios
As mãos suadas no teclado
O ímpeto de fazer contato
De ouvir uma letra
Uma poesia - voz.
Uma clássica desculpa
E alguns dias mergulhar
Num estado de renascimento
Parir a voz com simples movimento
Pelo descontrole e pelo desejo
Mórbido de reviver
Aqueles saudosos momentos
A razão dança incerta
O coração dribla seus comandos
Corre os olhos pelo espelho
Questiona a validade do ato

Mas que me sobra é o aguardo
Um misto de pontualidade
Expirada com lembranças
Mofadas.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Não passo simplesmente
Pelos lugares e olhares
Imprimo meus passos
Onde pousam meus olhos
As memórias vêm ácidas
Mas dizem que "recordar é viver"
Então vivo intensamente
Sinto cada sopro de ar
Cada tapa na cara
Não.
Eu não choro por fraqueza
Choro por tristeza
Por mentiras que não posso engolir
E porque, às vezes,
Eu gostaria de engolir.
O passado chega trotando
Cobre meus dias de poeira
- Tenho alergia a pó.
Ainda assim,
Com toda torcida contra,
Umas pedras na estrada
E umas desculpas esfarrapadas
Sei bem o escopo dos meus desejos
É por eles que continuo em pé
E no salto altíssimo
De lá, meu bem,
Ninguém me tira!