domingo, 30 de setembro de 2007

Não sei que é
Que faz
Minha cabeça oca
Que quando diante
Da tela branca
Fica a vislumbrar o piscar
Do cursor
Até poucos minutos
Do tempo explodir
E então se expande
Num turbilhão
De idéias
E histórias começa
A cuspir.
Entre o desequilíbrio
E a lucidez
Me encontro
Com bala na boca
Esperança na bolsa
Endereço num papel
E sapatos resistentes
Deus sabe que eu chegarei
Ele até já deixou
Um capacho na porta
Pra eu limpar os pés.

sábado, 29 de setembro de 2007

Não pinto minhas unhas
De vermelho
Faz uma semana
Um mês, talvez
Esqueci o tempo
Desde que foi embora
Não sei se me olho
Se me esqueço
Da dor que não cessa
Do quarto sujo
Que me prendi
Não quero abrir a janela
E ver meu rosto modificado
Pelas porcarias que tomei
Meu corpo sujo de tristeza
As coisas no chão
Lavado de tanto chorar
Quero comer esse pó
Para ter um pouco
Do que restou.
Garoa no parque
Coberto de barro
Garoa no prado
Lascívia e mudez
Dispenso o relógio
Dispense a nudez
O corpo transcende
Qualquer teia na pele
O lábio assobia
A canção de Elis
O tremor vem à tona
De instintos reprimidos
Na oscilação das notas
Dos rastros das botas
Nas gotas d'água
Derramadas em setembro
Primavera nos meus olhos
Não me sinto poetisa
Sou sim, Poeta!

domingo, 23 de setembro de 2007

Nessas noites açucaradas
Quando as estrelas brilham
E a Lua mira meus cabelos negros
Me deixo ficar estagnada
Pescoço em torcicolo
Esperando que todo aquele
Milagre
Venha do céu púrpura
E acalme meus destroços
Como um bálsamo

Elas me observam
– criaturas soturnas –
Desesperadas
Pelo brilho que contém
Meu olhar cadenciado
Para Ela

Mal sabem
Que dor tange
Essa alma solitária...
Com os pés pulando na areia
De um show nos anos 70
Bolsa de couro
Calça boca-de-sino
E plataforma
Cerveja e cigarro
Música e paz

Ou numa ponte em St. Petersburg
Na neblina e no frio
Conversar com Dostoiévski
Contar minhas dores
E ouvir-lhe as fantásticas palavras

Talvez num lugar dos anos 80
Um bar e um copo de satisfação
Ouvindo o som do sintetizador
Vestindo calça Lee
Conversando com David Bowie

No alto de uma montanha
No deserto quente e seco
Com meus véus e meus deuses
Minha dança e minhas crenças
Com meu homem e meus camelos

Qualquer lugar no tempo
Que represente algo
Me faça pensar
Me faça sentir
Que não é obsoleta a existência
De meus dedos nesse teclado

Algum tempo para repousar
As feridas
E limpar os cortes
Dos espinhos da paixão
E de alguém que não sabe
O que tomar
Para continuar a viver

Extinguir esse peso
Esse mal-estar
Mover as teclas
E não ficar parada
Vendo o cursor piscar.
Sente aí
Vamos conversar
Que eu quero saber
O que você sente
E se é verdade;
Baby, eu sou apenas
Uma garota
Que gosta de blues
Que chora e sorri
Quando as coisas acontecem
Eu não sei o que dizer
Eu não sou perfeita
E só a Janis me entende
Eu quero poder dizer
Coisas bonitas a você
Mas sou um paradoxo
Desconexo
Não sei por onde começo
A dizer que te amo
Que te espero à noite
Enrolada em meu cobertor de sonhos
Com uma caneca de chá
Com os pés quentes
E os olhos sonolentos
De tanto esperar
Eu não sei o que é
Essa estranha sutileza
Nas palavras que me canta
Se me ama ou se cansa
De vagar por meus pensamentos
E sair com os pés sujos
De lama
Por favor,
Não me entenda mal
Se vomito coisas feias
É medo de dizer
Que te amo demais
Que o blues é perfeito
Mas sozinho é rarefeito.
Não há reflexos
De meu corpo inerte
Só um cansaço delirante
Um delírio itinerante
A viajar em minhas veias

No silêncio dessa solitude
Ouço o ruído que faz
Do sangue fluindo
Em minhas engrenagens
Lavando as entrelinhas

As lacunas eu preencho
Com tabaco e cevada
Nos instantes borbulhantes
Em que a mente depravada
Se despe do horror
Do teu olhar

A íris se retrai
Diante do grito dilatado
De seus olhos
Os meus arregalados
- Não de medo -
De desafio

Mais que um teste
Uma confirmação
De qualquer reação
Que emanasse dos poros
Ou um calor específico

Boa corda para quem
Não precisa se enforcar
Mau gosto, atrocidade
Para quem se recolheu
A um canto, com dor

Hipocrisia deflorada
Um tanto demagogo
Transbordável
Dispensável
Se quer saber

Ontem meu amigo
Meu amor
Hoje meu algoz
Ferocidade em drágeas
Que me recuso a consumir

Se eu deixasse que me tomasse
Por um olhar
Uma dor
Não seria eu
Seria a obsessão
Aquela forasteira
A me torturar.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

U2 me traz dores antigas
Me maltrata
Não desligo o rádio;
A dor é como um vírus:
Se não expulsar contamina
Três dias para curtir
Três dias inteiros
E nada para fazer
Ninguém para encontrar

Ontem saímos, foi bom
E ponto.
Continuo só e estagnada
As pessoas vão, e eu fico
Ah, se elas soubessem
Que o vazio que eu sinto
Dilata minhas dores
Até as veias saltarem
Até o estômago doer mais

E tudo se transforma
Num acorde agúdo
Ou fermata – aquele silêncio
Breve
Que parece eterno

Olho para o meu corpo
E percebo que é uma engrenagem
Parada
Uma peça nunca usada
Enferrujada de chuva.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Nesse tempo quente
As flores estão se abrindo
Na porta de casa
A massa cinzenta deixou o céu
E a luz do sol pende
Ao entardecer
Cegam os olhos pela vidraça
Enquanto a guitarra chora um blues
Enquanto ela se revira
Presa aos poros da minha pele
Com aquela angústia
E a salvação que suplicava
Nas canções que sussurrava
Quase um transe, uma prise
Um modo de desgastar o desespero
E abrir uma lacuna no tempo
Para poder respirar.
Do fluxo negro que contamina a noite
A negritude pastosa, aveludada do céu
O brilho intenso de uma Lua pálida
Semi-desmaiada
Atinge em cheio minha retina
Sufoca
Os olhos encharcados de lágrimas
As mãos espremendo o lencinho
Apertando os dedos
E eu me sentindo a pessoa
Mais infeliz do universo

Não é novidade
Só sentimento transbordante
Potencializado pela nudez
Da despudorada noite
A revelar suas belezas.
Elas sobrevoam minha cabeça
Bêbadas de tensão
Bolhas escassas de sabão
De um tempo sem medida
De uma dor escondida
Um grito de tesão
Emitido da garganta esgoelada
Da boca desgraçada
Que você beijou
Foi um só o tempo
Que eu amei o seu furor
Que eu pisei meus pés na sua vida
Que revolvi a terra seca e dura
Para semear sua atenção
São somente lembretes do passado
Grudados na porta da geladeira
Um blues chorado no rádio
A sala escura e o medo
Do hábito de sofrer
Ontem a noite foi diferente
E eu pensei que seus olhos demorariam
Na direção dos meus
Hoje eu acordei com uma dor de cabeça
E o corpo latente emergindo do sangue
O rosto borrado de rímel

Mas se acaso quiser saber de mim,
Pergunte à Janis
E ela lhe dirá como a minha música toca.
SinCronia
SincroniA
É a Falta
De sincroniA
OUtro Mundo
No escopo
Da miséria
Nem líquido
Nem gAsoso
É Só Uma mira
DesfocadA

É a lente desregulada
Da visão
De quem não quer ver.
Esses barulhos na minha cabeça
Os assuntos não resolvidos
Os problemas que vem a galope
E batem à porta da minha casa
Por dias e noites
Todos os passos dados
Na esperança de um dia
Chegar a uma clareira e descansar

Meu calmante é a música
O chocolate
Há quem corte os pulsos
Eu não
Para um bom masoquista
Viver em sofrimento
E tentar estancá-lo
É luta primordial
A dor no estomago é excruciante
A do peito
Nem dá para comentar

A corda na qual me seguro
Está cheia de nós
E eu preciso de forças para continuar
Uma jornada sem fim
Com destino incerto
E pior
Sabendo que não há quem
Para segurar a mão
É triste essa condição
Quando se está só
Mesmo com tantas pessoas ao redor.

domingo, 9 de setembro de 2007

Vim pisando o pó e a sujeira na terra
Vim limpando as botas para te encontrar
Quando te vi, meu céu se abriu
As lágrimas inundaram meus olhos verdes
Da minha boca pendeu um sorriso
Você me faz feliz
Você canta minhas dores, meus amores
Pra você eu teria o mundo
Numa caixinha feita de carvalho
Com uma cruz dourada enorme
Pra você eu dançaria incansável!
Por você eu renunciaria
O cor-de-rosa e o mel
Todo azul do céu
Eu encheria a casa com perfume
De cravo e decoraria com papel
Eu sofreria só por você...
Se não fosse num outro tempo
Se eu usasse espartilhos
Se eu fumasse maconha
Se você me encontrasse
Num buraco no tempo
Me amasse como te amo
Me soubesse
Me conhecesse
Me sonhasse
Me beijasse
Anos paralelos em mundos iguais
Tempos distintos numa mesma realidade
Eu viveria por você, meu amor...
Se eu tivesse você em mim
Ah como eu choraria
Como sorriria...

sábado, 8 de setembro de 2007

Há um mundo cheio lá fora
E um vazio enorme aqui dentro
Minhas feridas eu lavo com água sanitária
Que é pra ver se desinfeta e cura
Tem tanta vida e tanta cor
Que chega doer
Aqui, apnéia e sensação de vertigem
Eu só tinha um pedido a fazer
Tão simples que faria você rir
Eu queria mesmo poder rasgar as roupas
Abrir o peito e tirar o coração pulsante de lá
Atirar num rio ou mar
E desfalecer debruçada numa ponte ou píer
Dormir ao som do sino
Das vibrações que quebram esse silêncio mórbido
Que reverberam...
Fui abandonada à beira do precipício
Fui deixada numa viga de madeira
Pendurada por um cordão
Fui deixada para trás como resquícios de lama
Eu, as teclas de um piano
Ele, o apanhador de borboletas
Ouço a voz que sai do rádio
Chora letras e melodias cortantes
Navalhas enferrujadas fincadas em minha pele
Eu deixo vir
A vida é uma rotina
E doer, dói...
Todos os dias;
Dos amores só restou a música e o pó
Das patas de um manga larga castanho
Um aí, que carregava o desertor
O bandoleiro

Vou sair agora
E beber do veneno sozinha
Que nessa cidade não há ninguém
Disposto
A dividir comigo
Uma taça de cicuta

Vou de perto tão longe
Saracotear a barra do vestido
Debaixo desse céu intenso azul

Vou andando sem um chão
Vou voando pelo vácuo do encanto
De ter ainda pés pregados no asfalto quente

Vou deixando meu laivo de desalento
Um livro na bolsa
A bebida que me dá frenesi
Um rosto morno do sol
Umas idéias na cabeça
E umas dores no peito aberto

Eu vou por aí
E se me encontrar numa via qualquer
Acene e passe adiante.