quinta-feira, 28 de junho de 2007

Ela rompeu o casulo
Mas não voou
Não podia conter o pavor do mundo exterior
Quis se esconder novamente
Já não havia saída
Seus olhos brilhavam na dura escuridão
Lágrimas.
Era tão pungente sua dor
Que o silêncio tornou-se flagelo.
A cada gota que salta do telhado
Um estremecer, um suspiro
O surto em movimentos difíceis
O desamor e a falta de criatividade;
Errado!
Sempre tão errado, sujo e deprimente
O mesmo descarado amor
Que se atira incontido e desesperado
Às graças do acaso – felino pérfido
Gota de azeite atirada à água
Na ingênua esperança do entrosamento.
Nas profundezas de um oceano escuro e frio
Onde nada é nítido
É que se escondem os mais secretos desejos
Que nas águas de meu inconsciente flutuam;
Alguns à deriva, outros atracados
Pensamentos intocáveis e mutantes;
Sórdidos e estimulantes;
Lúcidos e febris,
Que transformam-se em sentimentos;
Pousam em meus lábios quentes, seus beijos molhados
Meus cílios piscam simultaneamente entre os seus
Singelos, incontidos, sóbrios...
Procurando encontrar-te em teus olhos.
Caminhava eu pela bela necrópole
Em uma das mãos uma garrafa de vinho
Na outra o cigarro entre os dedos
Absorta em meus pensamentos
Imaginando o porquê de tanto sofrimento em meus vinte anos.
Tomada por um estado crônico de melancolia
Tentava entender o motivo de sua partida
Será amor, a ausência minha em teu leito nas frias noites?
Ou será que nosso Amor tornou-se decrépito
E nossas vidas impossíveis de serem conduzidas por melodia qualquer?
Em noites escuras e tempestuosas
Ouço uma voz que me chama
Serás tu, amor? Ou apenas a Morte que reclama?
Estou cansada de usar esta armadura decrépita
Não quero mais me esconder neste pó de ferro
Quero me despir da ferrugem que veio das lágrimas
Me lançar de peito aberto
Sobre o mar e deixar que me levem as ondas.
Não quero mais não ser mais eu...
Não quero representar ou fingir
Quero que me olhem por fora
E me vejam por dentro
Assim, como sou - frágil.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Não havia reparado,
Hoje, enxergo além dessa tua máscara
Teu olhar revela tua alma nua
Teu sorriso é luminoso como a alvorada...
É hora de se despir, se livrar da armadura do orgulho;
Encarar um ao outro, olhos nos olhos;
Se não sabes, te conto:
Os olhos são portais, espelhos d'alma
Todas as vezes que os cruzei, pude vê-la
Só não tive ainda o prazer em conhecê-la.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Me encontra...
Diz que me ver é vital
O mundo gira tão rápido
Que sinto arrepios
Vertigem
E uma brisa que insiste
Em embrulhar meu estômago
Os sons passeiam em minha cabeça
Arpas e violinos
Cellos e bandolins
Pensamentos se misturam ao gosto da boca
Estalos vindos da fogueira
Pessoas dançam animadas
Onde está você?
Meus dedos tocam no ar...
A dança me afronta
Onde está você?
Não posso mais sonhar
Sem você a poesia estanca...
Se joga
Se joga no meu mundo...

Meus passos sob os seus

Eu vestida em teias translúcidas
Girando em meio aos sóis psicodélicos
Via o teu rosto a me espreitar
E de um salto
Uma pirueta...
O tilintar dos colares e pulseiras
A dança caliente ao redor da fogueira
Ninguém sabia
Mas ali crepitava o fogo de um amor
Mais quente que os sóis que se moviam
Como engrenagens vitais
Tão lúcido que doía
Tão próximo...e tão distante
Aquele dia, foi por pouco
Não comprimi meus lábios contra os seus...
Mas foi por muito pouco;
E meu corpo ainda arde
À espera de um abraço seu...
Oh meu amor, por que tardas?
Tenho urgência em beijar-lhe
A face úmida e cândida,
Segurar-lhe as mãos trêmulas
Sentir suas pestanas vacilantes
Piscando entre as minhas
Perseguir seus pensamentos inertes...
Leia meu poema saudoso, angustiado,
Que fala dos tempos idos
De nossos anos auros
E veja que te citava
Em cada verso;
Em cada palavra;
Em cada letra;
Mesmo sem saber quando
Entendia que encontraria
Enfim um dia
Meus sonhos numa melodia
Que se concretizariam
À medida que te tocava
Num jardim sedutor
E abarrotado de azaléias.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Meu corpo se debatia contra a água gélida
As espumas emergiam cintilantes, translúcidas, espessas...
Era indizível o negrume marino;
Seu odor umente carregado pela brisa
Transia a tez febril
Oceânides bailavam ao meu redor a me enloquecer
Com suas fitas e escamas preluzentes
Circundadas por medusas umbrícolas
Frente à face lunar que insistia, inutilmente,
Transpassar a película marinha
Barcos que iam e vinham em minha mente
Traziam novidades do novo mundo
Imprimiam seus rastros sobre a superfície
Enquanto eu borbulhava na imensidão
Sem consciência de que era um peixe!

Salomé

Dorme Salomé...se puderes!
Que a cabeça que deitaste
De nada te serviu
Tanto quiseste, pediste,
Mas a boca que beijaste
Já era tépida;
E a serpente rubra que te rejeitou
E vomitou assombros
Não mais vagueia
Banha teus pés alvos - pombinhos brancos
No escarlate do lajedo frio
Batiza tua fronte no sangue
Recolhe a asa negra e ferida
Que teu amor não vingou!
E dança, bonita! Deslumbra
Tilintando os colares
Serpenteando o quadril
Ao frêmito dos véus
Dança!
Pra ver se a Lua te perdoa
E ilumina teu monstruoso destino.



>>Inspirado em "Salomé", de Oscar Wilde.
Super recomendado...boa leitura!

Volúvel

Apaixono-me todo o tempo
Por quase tudo e todos
Sou suscetível à paixões
É como uma luz fortíssima
Que lhe causa encanto louco
E logo se apaga
Ou dor pungente, excruciante
Que logo passa
Algumas suscitam desejos incontroláveis,
Obsessivos;
Enquanto algumas outras
Como vêm, se vão
É o clarão, aurora
Num dia de verão.
Cegarei os olhos da paixão
De modo que eles não me persigam mais
E na crueza do ventre que a gerou
Contos não mais existirão
Pois do gosto da carne crua, fria e sangrenta
Eu provei!
E já em minha garganta
Escorreu o fel de um desafeto
Pois quando me enamorei por alma infante
Meu fulgor fora secreto.
Qual Charlie Brown, eu erro
Tropeço em meus pés
Rolo por cima de minha cabeça
Caio de cara na poça de lama
Olho à minha volta
Pessoas...ninguém me ajuda.
Você estende sua mão,
Mas eu já louca de cólera
Pelo ridículo desprezo alheio
Atiro lama em sua boca
Chuto sua bunda
E saio andando, suja
Impregnada do ódio e da tristeza
Vendo você ali, parado, a me olhar;
Choramos de dor, os dois
Mas a escolha foi feita
Caminho, agora, pela floresta úmida
Solitária, raspando minha lama
Nas folhas verdes, brilhantes
Minha única testemunha é a Lua.
Mas ela não fala...
Você, que como eu
Tem o céu e o inferno
Esculpidos em cada fibra de carne
Do seu corpo
Que respira a poluição dos dias claros
Da gente "sensata e trabalhadora"
E mergulha no submundo úmido
E escuro de noites solitárias
Que vê a carne podre e cheia
De bichos asquerosos nos lixos
E sente o cheiro acre
Dos pecados que a cidade
Exala quando escurece
Você, vestida com seus véus
Abriria uma fresta para encarar
A luminosidade como ela é?
Se um tanto de toda poesia
Que pousa em meus lábios secos
Pudesse viver, hidratada em minha saliva
E não se perder em meio à fumaça
Se os caminhos perfumados pelas flores
Pudessem ser minha clareira de descanso
Para as horas difíceis
Se o hálito que exalo concretizasse
Toda dor, angústia, aflição, amor, paixão
Que flui em meu sangue e nas fibras de meu corpo
Ah, meu nome seria poesia...
Eu inalo poesia
Eu transpiro poesia
Eu vivo pela poesia...eu vivo a poesia...
Mastigo, injeto, sonho, misturo ao café.
A cabeça gira como um carrossel
O corpo latente,
E um arrepio percorre a espinha
A garganta num nó...
Não, não é paixão,
É gripe mesmo
A paixão está por vir...

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Sinto ânsias e vontade incontrolável de vomitar
A pouco inalei um odor de enxofre, na rua
Sim, era enxofre, tenho certeza que era
Minha vida resvala para o asfalto negro e sujo
O frio que penetra a sola de meus pés já não maltrata
Esse gelo da noite serve como aconchego para minha dor
Ele abarca todos os males que me afligem e endurece...
A flor que brota do piche é o sinal dos tempos
Sinal de fé em tempos pérfidos

Só quero ter forças para manter minha vida e a insanidade intactas
Para não ver nem sentir esses dentes venenosos da dor
Em meus dias
Tudo que quero é acordar desse sonho para o qual fui tragada.
E o feixe brilhante escarlate
Que escorre alegre como água de torneira
Escorre pelo canto da boca
Da boca que mordeu minhas unhas vermelhas
Que mordeu meus dedos
Que mordeu minha boca-carmim
Devagar escorre o beijo que me beijou
O hálito
O som surdo da tua voz
A vida que me envolveu
A boca que me comeu
Que me mastigou
Da doçura que me restou,
O sangue quente para consolo
Vou guardar num pote decorado
Com os dizeres: Eu te amei.

Reflexão Sobre a Reflexão

Terrível é o pensar.
Eu penso tanto
E me canso tanto com meu pensamento
Que às vezes penso em não pensar jamais.
Mas isto requer ser bem pensado
Pois se penso demais
Acabo despensando tudo que pensava antes
E se não penso
Fico pensando nisso o tempo todo.

Millôr Fernandes

Poema da Necessidade

É preciso casar João,
é preciso suportar Antônio,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbado,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens,
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o FIM DO MUNDO.


Drummond, Drummond...Ah, Drummond...
Que abram as portas e soltem os morcegos mofados
Da memória insana e corrosiva
Que de minha boca já tirei a sujeira
Com enxaguante bucal
E de meu corpo as teias que cobriam a pele
Como seda empoeirada
E nas dobras de meu pescoço passeou tua língua
Entre as mãos tremulas apertei teu rosto
Beijei, suguei, dormi no cansaço de teu peito
E quente era tua cama...





"E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória."

Trecho de 'Resíduo' de Drummond de Andrade

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Hoje o sol me cega com seus raios fluorescentes
Hoje sinto que o destino devora-me,
Mastiga-me, cospe-me;
Os sons vibram tão alto aos meus ouvidos
Estarei surda por não ouvir sua doce voz?
Estarei cega por não ver-te mais em meus dias?
Sua pele me afronta
Seu olhar me desintegra
Sua voz acaricia meu pescoço;
Sentir o prazer do seu corpo febril...
Algum dia, você permitirá?

A obsessão do sangue

"Acordou, vendo sangue... Horrível! O osso
Frontal em fogo... Ia talvez morrer,
Disse. Olhou-se no espelho. Era tão moço,
Ah! certamente não podia ser!

Levantou-se. E, eis que viu, antes do almoço,
Na mão dos açougueiros, a escorrer
Fita rubra de sangue muito grosso,
A carne que ele havia de comer!

No inferno da visão alucinada,
Viu montanhas de sangue enchendo a estrada,
Viu vísceras vermelhas pelo chão...

E amou, com um berro bárbaro de gozo,
O monocromatismo monstruoso
Daquela universal vermelhidão!"

Augusto dos Anjos
O céu rasga numa tempestade cinza
Meus olhos refletem os furiosos e azuis relâmpagos
Meu peito debruçado no parapeito de marfim...
Tão limpo e tão claro;
Uma mecha negra de cabelo serpenteia ao vento
Novamente meus olhos refletem a fúria do céu
Meus lábios são pálidos,
Carecem de calor e carmim
Meu sangue é gelado
Tal qual as gotas suicidas que se atiram contra as telhas...
Meu contraponto é o colapso
Minha tristeza é música bem tocada
Pelos dedos compridos e lânguidos de um'alma atormentada;
Como flor abatida pela tormenta
Deixo-me cair no chão e lá fico
Rodeada pelo cansaço intermitente
Minha cabeça lateja, agora
Minha dor é o alimento
Dessas noites sem fim
E eu vejo a visão púrpura em meu quarto
De um não materializado você....
Eu não faço poesia
Eu vomito dores
Eu não pinto a realidade
Eu espremo o sangue que resvala em minh´alma;
Me olho no espelho
E o que desejo é arrancar essa máscara
Poder ver meu rosto vermelho e modificado,
Molhado, chorado...
Eu não sou poeta
Eu sofro as feridas e as quedas
Eu mastigo a derrota amarga
Para vomitar a angústia,
Eu respiro a tristeza
E sufoco o que há de melhor
Com medo de me ferir de novo
E, às vezes,vejo a vida sem óculos
Para não enxergar certas dores;
Fico à sombra, apavorada,
Lutando para que a luz não me cegue.
Todas essas coisas que escrevo
São somente fragmentos das explosões
Dos últimos acontecimentos
Poesia crua, negra, provocadora
Rabiscos nesse resto de papel sujo
Agonia e sarcasmo em potencial
Oferecida aos amantes despudorados;
Espremer cada verso
Beber deste sangue lasso
Enfiar as mãos em minhas entranhas
E arrancar cada lamento disposto aqui.
“Para uso excepcional dos desafortunados”
Eis aqui o meu avesso...
Cambaleio em meio ao caos delirante
Nos cantos imundos das ruas pérfidas
Serpenteio no meio fio
Tropeço em meus destroços - alguém desprezou um corpo ardente
Sinto a náusea e o torpor
Vejo as bolhas de sangue passeando em meus olhos
Borboletas dançarinas - mariposas indecentes...
Fetos pálidos a berrar
Por um colo quente e uma taça de carinho.